Cometer um erro na escolha da avaliação em ABA é mais comum do que parece — e pode comprometer toda a intervenção. Se você atua com Análise do Comportamento Aplicada, já deve ter ouvido que “avaliar é o primeiro passo para intervir”. Mas será que todos os profissionais realmente entendem o que significa escolher uma avaliação corretamente?

Na prática, muitos analistas cometem erros sérios e recorrentes na escolha de instrumentos de avaliação, mesmo com boas intenções. Esses erros, embora comuns, têm impacto direto na qualidade do plano de ensino, na definição dos objetivos e principalmente nos resultados que a criança ou o adulto neurodivergente terá acesso.
Neste artigo, vamos abordar de forma objetiva os principais equívocos cometidos na escolha de avaliações em ABA, com base em referências científicas atualizadas da literatura internacional. Ao final, você poderá refletir sobre sua prática e fortalecer sua atuação profissional.
1. Escolher a avaliação mais popular, e não a mais adequada
VB-MAPP, ABLLS, Portage, EFL, Vineland…
É comum que profissionais iniciantes ou pouco supervisionados escolham o instrumento mais conhecido, mais citado em cursos ou o que “está na moda”.
Mas essa escolha, se não for baseada em critérios técnicos, coloca em risco todo o processo de intervenção.
📌 De acordo com Cooper, Heron e Heward (2020), uma avaliação deve ser tecnicamente adequada, clinicamente relevante e funcional para o contexto do indivíduo. Ou seja: a decisão deve considerar as características da criança, os objetivos de curto e longo prazo e o repertório do analista.
Exemplo de erro prático: aplicar a ABLLS com uma criança que já possui repertório verbal fluente, apenas porque a equipe “já está acostumada com essa ferramenta”.
2. Aplicar um protocolo sem compreender sua base teórica
Muitos profissionais usam protocolos como o VB-MAPP sem dominar a teoria do comportamento verbal de Skinner, que é a espinha dorsal da ferramenta.
O risco? Avaliar sem entender o que está sendo medido, interpretar os resultados de forma superficial e criar programas desconectados da função da linguagem.
📚 Slocum et al. (2014) destacam que, para que uma prática seja considerada baseada em evidência, o profissional precisa integrar conhecimento técnico, dados clínicos e evidências científicas.
Ou seja, não basta aplicar o protocolo: é preciso compreender o que ele significa, como foi construído e qual sua utilidade clínica.
3. Ignorar a função da avaliação como guia para tomada de decisão
Uma avaliação não serve apenas para preencher planilhas ou registrar presença profissional.
Sua função é identificar repertórios presentes e ausentes, definir prioridades, orientar escolhas estratégicas e fornecer dados para decisões clínicas fundamentadas.
📌 O BACB Ethics Code (2022) reforça: analistas do comportamento devem usar instrumentos válidos, com valor aplicado, e garantir que suas decisões sejam baseadas em dados confiáveis e interpretações precisas.
Erros comuns:
- Aplicar protocolos sem usar os dados para escrever programas.
- Avaliar só “porque o plano de saúde exige”, sem integrar os resultados à prática clínica.
- Repetir avaliações sem análise crítica dos progressos.
4. Usar um único tipo de avaliação para todas as necessidades
Este é um dos erros mais graves: achar que uma única avaliação resolve tudo.
Mas a prática baseada em evidências exige integração entre diferentes tipos de avaliação, como:
- Diagnóstica: para confirmar ou investigar autismo ou outros transtornos (ex: ADI-R, ADOS-2)
- Funcional: para entender as funções do comportamento problema (ex: FAI, FA experimental, IISCA)
- De Preferências: para identificar reforçadores eficazes (ex: SPAs)
- De Repertório: para mapear habilidades e lacunas (ex: VB-MAPP, ABLLS, Portage, EFL)
- Interdisciplinar: para compreender aspectos motores, sensoriais, emocionais, adaptativos, entre outros
📚 Hanley et al. (2003, 2014) mostram que avaliações funcionais bem conduzidas são um dos pilares da efetividade da intervenção. Ignorá-las compromete toda a estratégia.
5. Desconsiderar variáveis culturais, ambientais e contextuais
Um protocolo pode ser tecnicamente excelente — mas se for mal aplicado, fora do contexto da criança, sem sensibilidade ao ambiente familiar e escolar, os dados perdem valor.
📌 Avaliar requer sensibilidade clínica. O protocolo é um meio, não um fim.
É preciso refletir:
- Essa avaliação respeita o modo de vida da família?
- Os itens avaliados são relevantes para o contexto da criança?
- Os resultados estão sendo interpretados de forma funcional, e não mecanizada?
Avaliar não é aplicar. É raciocinar.
A escolha da avaliação não pode ser automática, nem baseada em popularidade.
Ela precisa ser intencional, técnica, fundamentada e eticamente justificada.
O erro mais grave não é usar um protocolo inadequado.
É usar qualquer protocolo sem reflexão crítica, sem supervisão e sem propósito clínico real.
Se queremos uma prática em ABA mais qualificada, ética e centrada no indivíduo, o ponto de partida precisa ser uma avaliação feita com conhecimento, análise e responsabilidade.
Referências utilizadas
- Cooper, J. O., Heron, T. E., & Heward, W. L. (2020). Applied Behavior Analysis (3rd ed.). Pearson.
- Slocum, T. A., et al. (2014). Defining Evidence-Based Practice in Behavior Analysis. Behavior Analysis in Practice.
- Hanley, G. P., et al. (2003; 2014). Functional Assessment and Reinforcer-Based Interventions.
- BACB Ethics Code for Behavior Analysts (2022). Behavior Analyst Certification Board.


